CRÍTICA/Quando existe sintonia entre texto e figurino e cenografia



Quando Norma (Glória Pires) apareceu em “Insensato coração” numa cena no cemitério, usando um véu para cobrir o rosto, a história de Gilberto Braga e Ricardo Linhares apresentou um drive para o folhetim rasgado que até ali não tinha surgido com tanta força. Gilberto me explicou que o acessório chama-se chorão. Pode estar fora de moda, mas, naquela situação em que a viúva não queria ser reconhecida por Léo (Gabriel Braga Nunes), fazia todo sentido. Mais adiante, no casamento de Pedro (Eriberto Leão), Glória Pires ressurgiu com um penteado armadão, pesado. Foi mais um momento em que o texto da personagem trágica encontrou uma expressão estética perfeitamente afinada com ela.

Esta feliz sintonia entre as intenções de quem escreve e as caracterizações, figurinos e cenografia vem acontecendo em “O Astro”. Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, que adaptam o texto de Janete Clair, respeitaram o folhetinzão sem reservas criado por uma das maiores especialistas no gênero que a televisão brasileira já conheceu. Os personagens não perdem tempo com circunlóquios ou muitas sutilezas. Desde a estreia, já se ouviram diálogos como: “O dinheiro só traz infelicidade, destrói as pessoas”. Além disso, os personagens se acusam mutuamente, o que serve, muitas vezes, para definir seu caráter para o público. Então vai de: “Você é um egoísta, um tirano” a “Você é repugnante”.

Quando Regina Duarte, uma atriz que soube dizer o texto de Janete Clair como poucas no passado, aparece em cena com o figurino e caracterização não realistas, sua atuação igualmente um tom acima do que ela já mostrou, por exemplo, em novelas de Manoel Carlos, se encaixa no todo. “O Astro”, com seu clima mágico, dramático, 100% novelão, não flutua acima do chão por acaso. Está propositadamente situado a mais de um palmo da terra.

Não é sempre que o público vê tamanha sintonia entre texto e direção. Mauro Mendonça Filho está visivelmente preocupado em contar a história que Alcides e Geraldo estão recontando. Direção e texto em “O Astro” se potencializam. Da mesma maneira, quando as duas forças brigam, uma novela pode perder o sentido.

PS: a crítica completa a “O Astro” sai domingo, na coluna da “Revista da TV”.

 Patricia Kogut

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